O
positivo da crise
Manfredo araújo de Oliveira
(Filósofo)
Algumas analistas
começaram suas considerações sobre a crise que
começou abalando os mercados financeiros e já
atinge a economia como um todo com afirmações do
tipo: não é o fim do mundo. Isto se justifica
pelo fato de que nas sociedades modernas o sub-sistema
econômico se tornou uma instância fundamental
da vida coletiva de modo que as pessoas por oportunidade de
crises têm a impressão de que tudo desmorona. Um
elemento positivo deste fenômeno é que ele obriga
as pessoas a refletir sobre o tipo de mundo que construímos
e isto constitui uma chance de que se levante a pergunta pela
possibilidade de uma outra configuração da vida
coletiva.
Evidentemente
isto depende muito de como se compreende este fenômeno. O
professor Delfim Neto, por exemplo, defendeu num debate
organizado pela Folha de São Paulo a tese de que
as crises constituem algo normal na economia de mercado e
inclusive lhe são úteis. Para ele esta é
46ª crise identificada e isto é o resultado da
forma mesma como funciona a economia de mercado. A solução
consiste no seguinte: quando aparece uma crise é
necessário procurar suas causas; em seguida deve
acontecer um diálogo entre a teoria e a realidade a fim
de que as causas sejam corrigidas (a crise dos anos 80 foi
produzida pelo excesso de regulação, esta agora
pela falta de regulação) e o processo produtivo
possa continuar seu curso. No entanto, para ele quem
compreendeu a lógica que rege a economia de mercado sabe
que com a solução para uma crise, uma outra já
está emergindo e vai explodir mais tarde. O importante
nesta interpretação é de que se trata aqui
de um mecanismo de purificação do sistema que
foi capaz nos últimos 150 ou 200 anos de trazer a
humanidade da Idade da Pedra para a da Informática.
Sem dúvida
há um elemento correto nesta leitura: uma economia de
mercado não possui um centro de coordenação
e as relações entre seus participantes vão
evoluindo de acordo com sua dinâmica própria.
Neste sentido específico se fala de anarquia
significando ausência de poder e no mercado o único
poder é o poder dos participantes e competidores. Ora,
o resultado desta competição é em
princípio imprevisível e está sob muitos
aspectos sujeito ao acaso uma vez que os planos privados dos
diferentes competidores são conservados em segredo o que
por princípio torna impossível uma coordenação
prévia. Este mecanismo leva, então, o mercado a
forçar a compatibilização dos planos
privados através da eliminação de uns e da
premiação de outros. Os lances de todos são
dados no escuro, portanto, o risco é inerente a este
sistema. A coisa se torna mais aguda nos mercados financeiros
em que uma massa de especuladores visa maximizar ganhos o
mais rápido possível. O resultado são seguidos
ciclos financeiros: uma fase de alta em que uma bolha
especulativa vai supervalorizar certos ativos financeiros
seguida por crise, pânico, quebras, etc.
Para além
do otimismo de Delfim Neto, é possível levantar
algumas questões básicas. Uma primeira, acentuada
na discussão atual, é a respeito da relação
entre Estado e Mercado. A história recente parece
apontar para o fato de que nem o excesso de regulação
nem sua ausência absoluta conduzem a resultados
satisfatórios. Uma outra questão básica é
que os ciclos de prosperidade recentes se basearam em
fontes de energias poluentes e excluíram enormes
parcelas de população pelo mundo afora. Isto tudo
conduz a uma pergunta mais radical: não
será possível pensar num outro tipo de
sociabilidade em que a economia possa estar a serviço
das necessidades reais das pessoas? Não é
possível pensar uma economia sob controle social que
radique as relações entre as pessoas na
cooperação, partilha, complementaridade e
solidariedade? Não é possível encontrar um
modo democrático e igualitário de regulação
da economia?