Artigo
O Pesadelo da Sra. Thatcher
Valton de Miranda Leitão
A senhora Margareth Thatcher certamente está tendo terríveis
pesadelos desde que a crise mundial do capitalismo se instalou,
varrendo como onda gigantesca as bolsas de valores e as organizações
financeiras. Quando primeira ministra da Inglaterra "a dama de ferro"
aboliu o salário mínimo e decretou o fim da distribuição de leite para
as crianças inglesas. Tudo isso em nome do economicismo liberal de F.
Hayek que propalava as maravilhas da iniciativa privada e a absoluta
incompetência de qualquer intervenção estatal na economia e na vida
política. Nunca pensei que viveria esse momento, pois confesso, minha
brincadeira predileta é divertir-me com a verdade de que o capitalismo
está moribundo na forma perversa financeiro-consumológica. A diversão
das pessoas coerentes é a busca do sentimento verdadeiro, mas isso não
significa crueldade, mesmo com a elite capitalista que sofre as
conseqüências da sua própria insanidade. Ontem fiquei imaginando que a
Sra. Thatcher depois de assistir o noticiário da BBC londrina deve ter
pensado em voltar para a sua química de origem, pois a ciência política
que abraçou com a convicção fanática de que o mercado livre de qualquer
regulamentação salvaria o mundo, agora deu com os "burros n'água",
usando um pouco do sarcasmo do seu quase compatriota Bernard Shaw. O
macio leito da dama de ferro certamente agora sente todo o peso de um
sonho de chumbo. A integridade moral da Sra. Thatcher está fora de
questão, mas creio que deve andar sonhando com o fantasma de Ronald
Reagan e apontando-lhe o dedo dizendo: "está vendo seu maluco em que
apuros estamos metidos por acreditar que o mercado era um deus, o
George Soros e nós dois os seus corifeus?!" Ao que Reagan responderia:
"querida Thatcher sou apenas uma visagem iletrada que acreditou nessa
complicadíssima ciência econômica, mas fique tranqüila, dentro em pouco
tudo será fantasmagoria!" Nesse momento, o telefone de cabeceira tocou:
"Sra. Thatcher, a reunião dos trinta maiores bancos de financiamento do
mundo com o FMI virou um pandemônio, todos se entredilaceram, ninguém
confia em ninguém, agora estão jogando os cinzeiros, canetas e laptops
uns nos outros, foi preciso chamar a polícia!" O marido que acordara
sobressaltado disse: "sempre lhe falei que esse negócio de política
enlouquecia sua mente e deveria ter ficado com os tubos de ensaio!
Agora pare essas conversinhas com banqueiros trapalhões, pois já fiquei
farto do seu namoro com o canastrão do Reagan!"
O problema desse pesadelo é seu potencial de contágio, pois pode se
espalhar pelo mundo tirando o sono de miliardários, remediados altos e
baixos, pobres e miseráveis. A política se exprime na dialética amigo x
inimigo, indo da diplomacia à guerra entre povos soberanos, mas
igualmente no interior de cada organização, partido ou instituição.
Nesse nível psicológico, a decisão política pode se transformar em
paranóia grupal. Cada grupo se sente vigiado pelo outro, enquanto os
indivíduos mais suscetíveis vêem inimigos por toda parte. O cérebro
racional da política desaparece, cedendo lugar ao demônio do
inconsciente individual e coletivo. Assim, como pedir crença e
confiança nesta guerra onde o terrorismo financeiro é o sujeito que
governos do mundo querem salvar? Nessa conjuntura absurda, os
terroristas financeiros da elite capitalista devem ser salvos com o
dinheiro do contribuinte de classe média e assalariado. É uma espécie
de assalto no qual se pede ao assaltado que seja confiante e paciente
porque terá seu dinheiro de volta!!! Isso parece indicar o fim do
capital global, ao mesmo tempo que denuncia a estupidez da sua lógica
consumista. A combinação da compulsão capitalista pelo lucro com
ambição e arrogância da banca financeira precisa ser tratada pela
política com mão de ferro. Os grandes banqueiros devem comparecer ao
banco dos réus e a práxis política deixar de ser tão submissa às suas
ordens. O telefone do reitor de Cambridge chamará amanhã: "Sr. Reitor
aqui é Thatcher, volto a dar aulas de química na segunda-feira."
Valton de Miranda Leitão
Psiquiatra
vmleitao@terra.com.br